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Adolescência, família e drogas

“A adolescência é como um segundo parto: o filho nasce da família para entrar na sociedade”                                          
Particularmente acredito muito no poder do conhecimento para a transformação do ser humano, através da auto-educação. Essa palestra sobre adolescência, nas diversas vezes que já tive oportunidade de divulgá-la, em casas espíritas ou escolas, vem acrescentar muito aos pais e educadores em geral, pois lhes traz um conhecimento científico sobre um problema tão conhecido:  o conflito entre adolescentes e pais. Quando os pais assistem a palestra adquirem uma visão diferente sobre a questão e conseqüentemente têm maior compreensão sobre essa fase tão difícil e delicada dos filhos adolescentes, facilitando, assim, o convívio entre eles e dando-lhes maior apoio e segurança. O que constitui um fator de proteção aos filhos adolescentes.
A adolescência não possui uma definição precisa, clara, como temos noção da infância e idade adulta. Em algum ponto a imaturidade da infância e a maturidade da idade adulta  estão os seis ou sete anos que chamamos adolescência. Para o leigo, a adolescência refere-se simplesmente ao processo de crescimento, o período de transição entre a infância e a idade adulta compreendida entre os 13 e 19 anos de idade. Entretanto, o período da adolescência varia de cultura para cultura e vem abrangendo períodos cada vez maiores, podendo se estender até os 22 anos ou mais, idade na qual considera-se que o indivíduo seja capaz de estabelecer sua identidade pessoal. O termo adolescência refere-se aos desenvolvimentos psicológicos que estão relacionados aos processos do crescimento físico, definidos pelo termo puberdade.  (HERBERT, 1991).
Nessa fase, o adolescente apresenta:

contornos da autonomia

processo doloroso em muitos aspectos, gratificante e alegre em outros

período diferente dos outros períodos de desenvolvimento

conserva aspectos infantis e já tem aspectos adultos

A Síndrome da Adolescência Normal (SNA) é um conjunto de “sintomas” característicos da fase da adolescência, que embora se apresente como universal há características bastante peculiares, conforme o ambiente sócio-cultural do indivíduo, não sendo possível estabelecer seu início e término precisos, acreditando-se, todavia, que culmina com o estabelecimento da identidade pessoal.

1. Busca de si mesmo e da identidade

2. A tendência grupal   

3. Necessidade de intelectualizar e fantasiar

4. Crises religiosas       

5. A vivência do tempo

6. A sexualidade

7. Atitude social reivindicatória 

8. Condutas contraditórias

9. Separação progressiva dos pais        

10. Constantes flutuações do humor

 

1. A busca de si mesmo e da identidade consistem em um processo de busca: com encontros fortuitos, com as paixões repentinas, transitoriedade, formulação da auto-imagem, autodefinição corporal e psicológica. O adolescente não é reconhecido neste esforço; o ambiente tende a criticá-lo pela sua volubilidade e culpabilizá-lo.

2. A tendência grupal onde o adolescente busca uma  IDENTIDADE GRUPAL que facilita a resolução das ansiedades em relação à própria falta de referenciais, modismos, posições ideológicas e filosóficas.

3. Necessidade de  intelectualizar e  fantasiar: o raciocínio evolui do concreto para o hipotético dedutivo.     

4. Crises religiosas:  busca de identidade, busca   simultânea de  um  mundo e uma dimensão religiosa que se tornam campo de experimentação e possíveis definições.

5. A vivência do tempo: o adolescente tende a vivenciar o tempo de forma peculiar, diferente; dilatação da dimensão do presente com conseqüente afastamento da dimensão do passado e do futuro; é comum se referir ao passado como algo vivido remotamente e ao futuro como algo longínquo. O adolescente tem a percepção diferente do tempo em relação ao adulto.

6. A sexualidade: pode apresentar variadas tendências; ansiedades podem ser geradas dependendo do ambiente.

7. Atitude social reivindicatória: o adolescente se percebe como parte de uma coletividade, isso o torna capaz de uma ideologia, de uma atitude e de um posicionamento.

8. Condutas contraditórias: experimentação constante; desvios constantes dos objetivos originais.

9. Separação progressiva dos pais: ambivalência dos adolescentes entre situações de dependência e independência. Pais: permissividade e autoritarismo.

10. Constantes flutuações de humor: diante de tantas modificações, conquistas e impedimentos de toda ordem, o adolescente tende a ter polarizações tanto na linha depressiva quanto eufórica. É uma flutuação constante de humor.

Segundo Freitas (2002), o adolescente é extremamente vulnerável aos apelos provenientes do mundo das drogas em virtude das modificações pelas quais passa o seu mundo interno. A fase da adolescência é muito complexa, com ganhos e perdas importantes. A negação desse sofrimento é que se traduz em uma das graves patologias desse período da vida do ser humano. Essa negação, muitas vezes, conduz a comportamentos anti-sociais e autodestrutivos, encobridores de uma intensa angústia existencial.
Se a criança cresce em um ambiente familiar sem amor, sem limites, sem atenção, ela pode tornar-se um indivíduo sem estrutura emocional para enfrentar os mais diversos problemas de sua vida. Quando se torna um adolescente, essa mesma estrutura emocional  frágil aliada às mudanças da adolescência são fatores de risco para que ele vá em busca de um escape. E, se ele relaciona-se com a droga, no próprio ambiente familiar ou social, a progressão para desajustes sociais, que dentre outros pode ser a dependência de drogas, será apenas uma questão de tempo.

A família e o adolescente

A família deve proporcionar autonomia para o jovem e favorecer seus papéis adultos (socialização/individuação) para um desenvolvimento sadio, com autonomia, independência e condições para tomar suas próprias decisões. Há a  necessidade de continência familiar: uma moderação nas suas ansiedades, expectativas, críticas, etc...A flexibilidade é a chave do sucesso: não ser radical, autoritário. A adolescência exige mudanças estruturais e renegociações de papéis, envolvendo,às vezes, duas gerações. Os pais, ao satisfazerem as necessidades de maior apoio e autonomia, podem entrar em contato com necessidades semelhantes neles mesmos. A tensão pode vir de ambos os lados, pais e filhos. Os pais devem aprender a ter um relacionamento adulto com os filhos crescidos. Para os pais é muito difícil deixar de tratar os filhos como crianças. Deixar de tratá-lo como o “nenê da mamãe”, por exemplo. Na maioria das famílias, com filhos  adolescentes, os pais estão com seu foco de atenção em outros pontos (muitas vezes reavaliando casamento e a carreira) e deixam de prestar atenção às necessidades de seus filhos adolescentes. O filho que  reivindica independência pode vir a criticar os pais que a concedem com facilidade. O pendor para a independência é natural, mas a perspectiva de uma independência completa é assustadora. Ele precisa de limites dos pais e ele quer ter esses limites para se sentir parte de um grupo, sentir-se amado e protegido.”Não devemos nos limitar a dar educação às nossas crianças, devemos ensiná-los a ser pessoas.” (Herbert Spencer).   O questionamento dos valores paternos sem qualquer diálogo leva os adolescentes a criticar as falhas dos pais. Nas famílias em que as decisões e a auto-regulação são limitadas, os adolescentes tendem a ficar mais dependentes e menos seguros, cooperando-se, assim para o desenvolvimento de um adulto inseguro e dependente de outras pessoas. A adolescência também constitui uma fase de perda para a família: perde-se a criança para dar lugar ao adulto  jovem.  A filosofia a ser aplicada nesta fase pode ser chamada de “afrouxe e aperte”: dizer “sim” sempre que possível; “não”, quando preciso. Flexibilidade é necessária. O mais importante de tudo é não se afastar emocionalmente do filho.  “Pais podem falar o quanto quiserem, mas só irão ensinar quando praticarem o que pregam”. (Arnold Glasow).

A presença do pai é importante. É difícil para as mães tratar de problemas disciplinares sozinhas. 

Sampaio (1994): A presença dos pais junto ao filho é tão ou mais importante nessa etapa do que na infância, uma vez que seu papel agora é o de estar atento, de mobilizar sem dirigir, de apoiar nos fracassos e incentivar nos êxitos, em suma, estar com eles e respeitar cada vez mais sua individualização. (...) que possa ter capacidade para aceitar o que não pode mudar, coragem para mudar o que é preciso e sabedoria para reconhecer a diferença.

É necessário que os pais, outros familiares, professores e adultos, que convivem diariamente com o adolescente, estejam atentos e dispostos a ajudá-lo a passar de forma construtiva por essa fase do ciclo vital.

Satir (1991): “confiem nos jovens” 

                        * família é contexto natural para crescer                                  

                        * família é complexidade                                                         

                        * família é teia de laços sangüíneos e sobretudo de laços afetivos

                        * família gera amor, gera sofrimento

                                                       

“É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais”. (Coelho Neto)

 
Fontes: 
Aula da Dra. Sandra Scivoletto  - psiquiatra Especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência no curso de Aprimoramento em Dependências Químicas pela USP.
 
HERBERT, M. Convivendo com Adolescentes.  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.
 
FREITAS, L.   Adolescência, Família e Drogas – A função paterna e a questão de limites. Rio de Janeiro: Mauad, 2002. 
OSÓRIO, L. C. Adolescente Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
 

Psicose

Psicose é um termo psiquiátrico genérico que se refere a um estado mental no qual existe uma “perda de contato com a realidade”.
Nos períodos de crises mais intensas podem ocorrer, irá variar de caso a caso, alucinações ou delírios, desorganização psíquica que inclua pensamento desorganizado e/ou paranóide, acentuada inquietude psicomotora, sensações de angústia intensa e opressão, e insônia severa.
Tal é frequentemente acompanhado por uma falta de “crítica” ou de “insight” que se traduz numa incapacidade de reconhecer o caráter estranho ou bizarro do comportamento. Desta forma surgem também, nos momentos de crise, dificuldades de interacção social e em cumprir normalmente as actividades de vida diária.
Uma grande variedade de stressores do sistema nervoso, tanto orgânicos como funcionais, podem causar uma reação psicótica. Muitos indivíduos têm experiências fora do comum ou mesmo relacionadas com uma distorção da realidade em alguma altura da sua vida sem necessariamente sofrerem consequências para a sua vida.
Como tal, alguns autores afirmam que não se pode separar a psicose da consciência normal, mas deve-se encará-la como fazendo parte de um continuum de consciência.
Para o psicodiagnósitco são feitas observações clínicas que, a depender do caso, pode-se chegar a meses para um quadro correto.
Dois guias de diagnósticos internacionais de doenças podem ser usados como referência: o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (o atual é oDSM-IV), e o CID-10, a Classificação Internacional de Doenças. No CID-10 as psicoses estão classificações se encontram classificadas nas siglas F.20 a F.29; F.30, F.31, F.32.2 e F.32.3.
Sobre as principais características clínicas das psicoses, pode-se afirmar:


- São psicologicamente incompreensíveis (segundo Jaspers).


- Apresentam vivências bizarras,como delírios, alucinações, alterações da consciência do eu.


- Não existem alterações primárias na esfera cognitiva. Memória e nível de consciência não estão prejudicados, se isto acontece é devido a outras alterações psíquicas, bem como devido a substâncias psicoativas.
Como tal, a psicose pode ser causada por predisposição genética, fatores exógenos orgânicos mas desencadeados por fatores ambientais, psicossociais, com acentuadas falhas no desempenho de papéis, na comunicação, no autocontrole, no comportamento da afetividade, na percepção sensorial, na memória, no raciocínio, no pensamento e linguagem.
Há perda do senso da realidade e da capacidade de testá-la e, em casos extremos, do autoconhecimento, deixando o paciente de cuidar-se no aspectos mais triviais, como a alimentação e a higiene pessoal.
Na psicanálise, a psicose causou dificuldades teóricas para Freud, mas não para Lacan. Se o primeiro demonstrou-se hesitante em enquadrá-la teoricamente, concentrando-se na neurose, Lacan, tomando-a constantemente em suas conferências, associou-a à forclusão do nome-do-pai.
As definições de psicose em geral descrevem as classes de eventos que configuram sua natureza ou essência, apontam-lhe as causas e variações. Assim, haverá importantes distinções quanto ao conceito; caso venha a ser formulado no campo das Ciências da Saúde terão diferentes conotações das formuladas no campo Religioso, Poético dou das Ciências Humanas.
Michel Foucault em seu texto “A história da Loucura” aponta que a loucura (posteriormente chamada de psicose) poderia ser entendida como uma aberração da conduta em relação aos padrões ou valores dominantes numa certa sociedade; neste sentido, entender a psicose é também buscar entender quais os padrões dominantes e quais as reações do grupo social à tais condutas estranhas e aos seus agentes.


Fonte: www.consultoriopsicologico.blog.br

Filho girassol e filho miosótis

O girassol é flor duradoura que enfrenta até a mais violenta intempérie e acaba sobrevivendo. Ela quer luz e espaço e em busca desses objetivos, seu corpo se contorce o dia inteiro.
O girassol aprendeu a viver com o sol e por isso é forte.
Já o miosótis é plantinha linda, mas que exige muito mais cuidado. Gosta mais de estufa.
O girassol se vira… e como se vira!
O miosótis quando se vira, vira errado. Precisa de atenção redobrada.
Há filhos girassóis e filhos miosótis.

Os primeiros resistem a qualquer crise: descobrem um jeito de viver bem, sem ajuda.
As mães chegam a reclamar da independência desses meninos e meninas, tal a sua capacidade de enfrentar problemas e sair-se bem.
Por outro lado, há filhos e filhas miosótis, que sempre precisam de atenção. Todo cuidado é pouco diante deles.
Reagem com medo, melindram-se, são mais egoístas que os demais, ou às vezes, mais generosos e ao mesmo tempo tímidos, caladões, encurralados.
Eles estão sempre precisando de cuidados.
O papel dos pais é o mesmo do jardineiro que sabe das necessidades de cada flor, incentiva ou poda na hora certa.
De qualquer modo fique atento. Não é uma tarefa fácil...por isso ouça o seu coração!
Não abandone demais os seus girassóis porque eles também precisam de carinho e atenção…e não proteja demais os seus miosótis porque eles precisam crescer e aprender a caminhar sozinhos!
As rédeas permanecem com vocês… mas também a tesoura e o regador.
Não negue, mas não dêem tudo que eles querem: a falta e o excesso de cuidado podem matar as plantas…ou impedi-las de serem felizes, do jeitinho que são. Afinal, todos os filhos são singulares e muito, muito especiais!
Andréa Andrade - Psicóloga

Perversão

Definição
O significado original per vertio, por sua vez derivado de per vertere, remete à noção de “pôr de lado”, ou “pôr-se à parte”.
Historicamente, perversões de conceitos morais foram atribuídas a perturbações de ordem psíquica, que dariam origem a tendências afetivas e morais contrárias às do ambiente social do pervertido.
Para essa visão, a perversão poder-se-ia constituir em uma única anomalia psíquica do indivíduo, ou fazer-se acompanhar por déficit intelectual, de instabilidade emocional, de doença mental intercorrente, etc.
O comportamente do pervertido seria, então, determinado pelo seu nível intelectual: enquanto as perversões dos com o “nível intelectual inferior” seriam impulsivas, brutais, praticadas sem rebuço, as dos “indivíduos de bom nível intelectual” seriam quase sempre astuciosas, dissimuladas, encobertas.
Entre os atos mais frequentemente apontados como perversões, por se desviarem de forma mais grave do comportamento tido como normal do ponto de vista social, são atos tidos como desvios sexuais: sadismo, masoquismo, pedofilia, exibicionismo, voyeurismo, etc.
Sabe-se que a masturbação também já foi considerada uma modalidade de perversão sexual no passado. Na medicina moderna quando o comportamento individual de excitação sexual somente se dá em resposta a objetos ou situações diferentes das tidas como normais, e quando esse comportamento interfere na capacidade do indivíduo de ter relações sexuais e/ou afetivas tidas como normais, dá-se o nome a essa disfunção de parafilia

Estrutura Psíquica e Comportamental

Na Psicanálise, perverso é toda pessoa que possui um modo de funcionamento psíquico baseado numa estrutura perversa.

Histórico do conceito

O conceito psicanalítico de “perverso” tem origem na obra de Freud, nos Três Ensaios Sobre a Teoria de Sexualidade, publicado em 1905. Nesta obra inicial Freud trata da perversão como desvio da conduta sexual que não visa a genitalidade.
Inicialmente o termo era restrito ao comportamento homossexual, sado-masoquista, fetichista, entre outras modalidades de cópula que não se orientavam pela penetração peniano-vaginal.
Com o passar dos anos Freud começa a perceber que a escolha narcísica de objeto, ou seja, a escolha homossexual de objeto feita de maneira recorrente pelos homossexuais, pedófilos e fetichistas denunciavam um modo de funcionamento psíquico e discursivo diferente das neuroses e das psicoses.
Na Introdução ao Narcisismo, ao discorrer sobre seus estudos onde a patologia do “amor próprio” começa a ficar claro a diferença que ele percebe em relação aos neuróticos e psicóticos.
A partir de 1919 relaciona perversão e édipo, nos textos “Uma criança é espancada: Contribuição ao estudo da origem das perversões”, “A dissolução do complexo de édipo”, e  “A organização genital infantil: uma interpolação na teoria sexualidade”.
Nestes textos ainda não há uma indicação clara de um mecanismo específico que indique o caminho da perversão como uma estrutura. Pensamos que aspectos da sexualidade perverso-polimorfa podem estar presentes em qualquer estrutura, sem que isto a defina. O conceito de recusa aparece como um mecanismo normal da construção da sexualidade, que posteriormente é superado, a castração aceita e os desejos incestuosos, juntamente com os desejos de completude sucumbem ao recalque.
No texto “Fetichismo” de 1927 a recusa passa a ser entendida como um elemento permanente que, associado a cisão do ego (Spaltung), se tornam os mecanismos de defesa que marcam a estrutura perversa.
Em seu pequeno trabalho dedicado ao fetichismo Freud propõe que a chave desta forma de perversão se encontra justamente em uma duplicidade de atitudes diante da castração da figura materna: reconhecimento e repúdio a um só tempo.
Ora, isto só é possível à custa de um processo dissociativo que, como torna-se evidente, incide no eu. Não se trata de uma degeneração ou incapacidade constitucional de síntese mas de um processo de defesa.
A patologia neurótica se caracteriza pelo recalque (Verdrängung) do desejo durante o Complexo de Édipo. A somatização de conversão histérica, por exemplo, esta ligada a um desejo sexual que não foi satisfeito pelas vias normais.
Na patologia psicótica há uma rejeição (Verwergung) da realidade e do Complexo de Édipo. Os delírios, alucinações de depressões são uma tentativa frustrada de dar sentido e lógica a uma visão de mundo particular.
Já na patologia perversa o que ocorre é recusa (Verleugnung) da Castração Edipiana. O perverso não aceita ser submetido as leis paternas e, em consequência, as leis e normas sociais. Ele não rejeita a realidade e nem recalca os seus desejos.
Ele escolhe se manter excluído do Complexo de Édipo e da alteridade e passa a satisfazer sua libido sexual consigo mesmo (narcisismo). Este é o motivo de todo o perverso ter uma escolha homossexual de objeto, sendo representado por ele mesmo em alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto.
Foi Jaques Lacan que transformou esta opção de recusa da castração e da lei como estrutura psíquica singular a neurose e a psicose.

Características comportamentais

Segundo os diversos estudiosos da perversão alguns comportamentos são predominantes desta estrutura patológica.
* Sedução: Ao contrário da histérica que seduz por impulso, por uma necessidade inconsciente, o perverso seduz com intenção de manipular e controlar as pessoas ao seu redor. Através da incitação sexual, do choro, ou da sedução de ordem financeira, entre outras, o perverso usa suas vítimas no seu leque de relacionamentos. O perverso sempre tira proveito da sedução.
* Vampirismo: Os perversos sugam recursos e energias de outras pessoas para se manter existindo. É muito comum que um perverso, em vida adulta produtiva, continue recebendo rendimento de pais e parentes.
Um perverso também pode tirar sua fonte de rendimento aplicando golpes no Governo (aposentadoria, por exemplo), ou criando situações onde possam receber indenizações de outras pessoas ou empresas. É comum, em mulheres, ficarem grávidas para só viverem de pensão.
Os perversos são pouco afeitos ao trabalho próprio como meio de própria subsistência.
* Escolha narcísica de objeto: Um perverso procura estabelecer relações mais intimas com aqueles que se assemelham com ele ou por quem ele tem inveja (ou seja, quer ser como).
Sua escolha homossexual de objeto o leva a ter amor somente por si mesmo. Quase nunca leva em consideração os sentimentos e necessidades do outro. A escolha sexual, apesar de ser narcísica, não esta limitada ao homossexualismo.
Há perversos que mantém relações sexualmente heterossexuais mas, psiquicamente, homossexuais. A opção homossexual também não se restringe a estrutura perversa podendo também aparecer nas psicoses, como bem observou Freud, Melanie Klein, Masud Khan e Lacan.
* Mentira: O perverso é um mentiroso patológico. Ele sabe mentir muito bem e sabe convencer as pessoas de que está certo. Utiliza de retórica sofística, demagogia e apelo emocional na mentira com o intuito de conseguir o que quer.
Nas neuroses histéricas e na personalidade borderline também existe o fator mentira. A diferença é que o perverso a utiliza para tirar benefícios, lucrar e pode usar este recurso mesmo que isso traga prejuízo para outras pessoas. A teatralidade e a falta de constrangimento são marcas bem características.
* Problemas com a autoridade/moral/lei: Lacan bem observa que um dos sintomas que se propagam após a castração dos desejos por parte da autoridade (pai), o perverso sente um imenso prazer em desafiar regras morais e legais. Eles se sentem desconfortáveis quando estão sob a autoridade de um chefe, parceiro, juiz, policial ou de qualquer outra função normativa.
Quando são obrigados a aceitar uma ordem fazem o serviço mal feito ou sabotam o trabalho. Os perversos possuem um sistema de moral e de justiça muito peculiar baseado em sua centralidade narcisista.

Características psicossomáticas

Muitos autores como Masud Khan e Otto Kernberg perceberam, ao longo de seus estudos com pacientes perversos, alguns sintomas recorrentes de saúde.
Estes problemas não se restringiam somente a doenças sexualmente transmissíveis, conscientemente atribuído a promiscuidade sexual e inconscientemente relacionado com a negação de gerar ou dar uma vida para outra pessoa. Problemas relativos ao aparelho procriador são constantemente relatados por estes pacientes.
Para os pósreichianos como Federico Navarro os problemas nos órgãos reprodutores são produzidos pelo fluxo de energia libidinal que, em relação com o sistema psíquico, produz sintomas que comprometem órgãos relacionados a fertilidade.
A rejeição de se entregar verdadeiramente para uma pessoa, de ser solidário ou de ajudar o outro sem esperar um retorno pessoal causam um bloqueio energético específico nos níveis 6 e 7. Com exceção dos perversos que se utilizam do aparelho reprodutor e da capacidade de gerar filhos no intuito de explorar tal condição, uma boa parcela dos perversos retratam alguns problemas genitais específicos desde a adolescência.
Apesar da orientação reichiana estas observações são compartilhadas por algumas linhas da psicologia, psiquiatria e psicanálise.
* Homem: Alguns homens de estrutura perversa apresentam constantes feridas no pênis. Também apresentam uma contagem baixa de esperma desde a adolescência. Geralmente apresentam desajustes hormonais que comprometem o crescimento de pelôs em muitas partes do corpo como no toráx, sobrancelha, costas e genitais.
* Mulher: Algumas mulheres de estrutura perversa relatam pequenas feridas ou manchas nos lábios genitais e vulvas. Desde a adolescência possuem problemas com o útero que comprometem seriamente a capacidade reprodutiva.
É comum problemas hormonais que atrapalhem a ovulação e a possibilidade do surgimento de cistos. Os desajustes somáticos do aparelho reprodutor produzidos pela perversão podem, entre outras coisas, comprometer a saúde de um possível feto gerado.

Fonte: www.consultoriopsicologico.blog.br

Vida interior


Por B. F. Skinner

O grande triunvirato de Freud - o id, o ego e o superego - representa três conjuntos de contingências que são quase inevitáveis quando uma pessoa vive em um grupo. O id é "a natureza não regenerada do homem - o "velho Adão" judaico-cristão - derivada de suas suscetibilidades inatas ao reforço, a maioria das quais quase necessariamente em conflito com os interesses de outros. O superego - a consciência judaico-cristã - consiste na "pequena voz silenciosa" de um agente (comumente) punitivo que representa os interesses de outras pessoas. Ele é definido pelo Terceiro Dicionário Internacional de Webster como "um grande setor do psíquico que permanece inconsciente e parcialmente consciente, que se desenvolve a partir do ego através da internalização ou introjeção em resposta a conselhos, ameaças, avisos, e punição, especialmente pelos pais mas também por professores e outras autoridades. Ele reflete a consciência familiar e as regras da sociedade, servindo como uma ajuda na formação do caráter e como um protetor para o ego contra os irresistíveis impulsos do id".
Mas é "um grande setor do psíquico" apenas no sentido de "uma grande parte do comportamento humano", e é marcadamente inconsciente somente porque a comunidade verbal não ensina as pessoas a observarem ou a descreverem isso. É principalmente o produto das práticas punitivas de uma sociedade que tenta suprimir o comportamento egoísta gerado pelos reforçadores biológicos, e pode tomar a forma de uma sociedade imitadora ("servindo como vigário da sociedade") como as injunções dos pais, professores e outros se tornam parte desse repertório. O ego é o produto das contingências práticas da vida cotidiana que necessariamente envolvem suscetibilidades ao reforço e às contingências punitivas organizadas por outras pessoas, mas mostrando o comportamento formado e sustentado por um ambiente comum. Considera-se que isso satisfaz o id se atinge uma certa quantidade de reforço biológico, e o superego faz isso sem arriscar demais a punição. Não precisamos dizer que essas três personalidades arquétipos são os atores de um drama interior. O ator é o organismo, que se tornou uma pessoa com repertórios diferentes, possivelmente conflitantes, como o resultado de contingência diferentes, possivelmente conflitantes.
A análise de Freud parece convincente por causa de sua universalidade, mas são as contingências ambientais e não o psíquico as invariantes. Os conflitos entre o superego e o id, que o ego tão freqüentemente falha em resolver, mostram certos padrões familiares. Em algumas culturas o fato de que uma pessoa ama a sua mãe e vê o seu pai como um rival é quase uma característica do ser humano do sexo masculino enquanto a anatomia que define o seu sexo, mas uma universalidade comparável é considerada como encontrada entre as contingências sociais de reforço sustentadas por tipos de famílias em tais culturas. Os padrões arquétipos de Jung e o inconsciente coletivo podem ser vistos ou na evolução da espécie ou na evolução das práticas culturais. "A surpreendente semelhança do inconsciente reprimido através de todas as eras e civilizações conhecidas" é a semelhança das coisas que reforçam as pessoas e dos comportamentos que provam ser injuriosos a outros. Os aspectos universais, considerados como característicos de todas as linguagens, são o resultado de características universais das comunidades lingüísticas que surgem do papel desempenhado pela linguagem na vida cotidiana.
A vida da mente parece requerer e consumir energia psíquica. Esta é simplesmente uma outra maneira de representar a probabilidade do comportamento derivado de contingências de sobrevivência ou de reforço. O instinto é "a soma de energia psíquica que imprime direção aos processos psicológicos", no sentido de que suscetibilidades inatas ao reforço não apenas fortalecem o comportamento mas também dão a ele direção, formando e sustentando a sua topografia. As suscetibilidades devem ser vistas como enraizadas no seu valor de sobrevivência na evolução da espécie. Alguns programas de reforço criam "armazéns de energia". Outros lidam com a sua ausência em abulia ou depressão. As "grandes forças positivas" que se supõem "residirem em nossas profundezas" são meramente as grandes coisas que podemos fazer, dadas as circunstâncias favoráveis.
A palavra "profundeza", comum na psicanálise, freqüentemente faz a sugestão desavisada de que uma análise é profunda, mas também pode ser tomada como se referindo a certos aspectos espaciais da mente. O psicólogo do sec. XIX tratava a consciência como o lugar no qual as sensações poderiam ser observadas, mas os espaços ocupados pelo ego, superego, e o id são mais complexos. A mente tem diferentes partes inferidas de diferentes tipos de comportamento. 'Estar dividido sobre alguma coisa' é ter diferentes coisas a fazer sobre ela. O termo "esquizofrenia" originariamente queria dizer "mente dividida" e ainda é mal usado nesse sentido. 'Estar além de minhas forças' significa, por enquanto, ser duas pessoas. Diferentes tipos de comportamento são considerados como se situando em diferentes compartimentos da mente. "Em muitos seres humanos há um depositário de violência, mas o cérebro lança uma barreira, uma cerca, para mantê-lo sob vigilância. Secobarbitais podem derrubar essa cerca mental e permitir que a violência seja extravasada" (uma outra mistura interessante entre matéria e mente). A música, para um estadista conhecido, é "uma saída para a emoção passional", como se "a ópera subitamente aparecesse em sua vida política, colocando por terra os intactos compartimentos da emoção e da razão".
A mais conhecida divisão da mente é aquela entre consciente e inconsciente; desejos e medos reprimidos residem no inconsciente, mas eles podem surgir de repente na mente consciente. Freqüentemente se diz, particularmente por psicanalistas, que o behaviorismo não pode lidar com o inconsciente. O fato, porém, é que, desde o início, ele não lida com nada mais. As relações controladoras entre o comportamento e as variáveis genéticas e ambientais são todas inconscientes na medida em que não são observadas, e foi Freud que enfatizou que elas não precisavam ser observadas (ou seja, tornadas conscientes) para serem eficazes. É necessário um ambiente verbal especial para impor consciência sobre o behaviorismo induzindo uma pessoa a responder a seu próprio corpo enquanto ele está se comportando. Se a consciência parece ter um efeito causal, é o efeito do ambiente especial que induz a auto-observação.
Para aumentar a consciência do mundo exterior de uma pessoa basta submetê-lo a um controle mais sensitivo desse mundo enquanto uma fonte de estimulação. Marx e outros tentaram "levar as pessoas a um nível mais alto de consciência", submetendo-as ao controle de aspectos de seu ambiente que foram previamente ineficazes. As drogas que alteram o controle são às vezes consideradas como expandindo a consciência.
O que o behaviorismo rejeita é o inconsciente como um agente e, é claro, ele rejeita a mente consciente como um agente também. Uma biografia de Maomé afirma que "é óbvio a não muçulmanos que as palavras que Maomé ouviu... foram ditadas por ele pelo seu inconsciente... a voz de Alá era de fato a voz do inconsciente de Maomé". Mas se houve alguém que falou, esse alguém foi o próprio Maomé, mesmo se ele não observou a si mesmo fazendo isso. Foi Maomé enquanto pessoa, com uma história responsável pelo fato de ser Maomé, e não algum outro agente interno fragmentário, a quem devemos nos voltar para explicar o comportamento.
Diz-se frequentemente que há uma vida intrapsíquica da mente, totalmente independente do mundo físico, na qual memórias evocam memórias, idéias sugerem idéias, e assim por diante. Aqui há alguns exemplos da vida intrapsíquica de motivação e emoção: sentimento de frustração produz uma sensação de impotência que, por sua vez, leva à apatia ou a sentimentos de agressão. O ressentimento em relação à autoridade transforma-se em um impulso assassino reprimido, que mascara o desejo de se render. A fé enfraquecida no futuro leva à ansiedade e à depressão, que interrompe os processos de pensamento. O impulso de se conformar impede uma pessoa de conhecer os seus próprios medos, ódios, ou o sentido de desesperança.
Mas se nos voltarmos aos fatos sobre os quais essas expressões se baseiam, é comumente possível identificar as contingências do reforço que são responsáveis pelas atividades intrapsíquicas. Entre os fatos relevantes se encontram: a frustração é gerada pela extinção, que é também freqüentemente responsável pelo comportamento agressivo. As medidas de controle usadas por uma autoridade tornam mais prováveis que uma pessoa escape ou contra-ataque, e as condições relevantes podem ser sentidas como ressentimento; ao mesmo tempo, as medidas podem gerar comportamento complacente, razão pela qual as autoridades as usam. As condições corporais associadas à complacência não podem ser sentidas se as condições associadas à fuga ou contra-ataque forem fortes.
A vida no mundo interior da emoção e da motivação é dramaticamente ilustrada pelos dinamismos freudianos, ou os mecanismos de defesa. Eles têm sido definidos como "reações de personalidade por meio dos quais um indivíduo tenta satisfazer as suas necessidades emocionais; e.g., estabelecer harmonia entre forças conflitantes; reduzir sentimentos de ansiedade ou culpa que surgem de desejos, pensamentos e emoções que não são aceitáveis". Definições alternativas podem ser derivadas das contingências responsáveis pelo comportamento do qual os dinamismos são inferidos. Eu considerarei três exemplos, usando definições do Terceiro Dicionário Internacional de Webster.
Repressão: um processo ou mecanismo de defesa do ego por meio do qual desejos ou impulsos que são incapazes de realização são mantidos intactos ou tornados inacessíveis à consciência". Por "desejos ou impulsos" entenda-se "probabilidade de comportamento"; por "incapaz de realização" entenda-se "extinto ou punido"; e por "mantido intacto ou tornado inacessível à consciência" entenda-se "não observado introspectivamente"... Temos então o seguinte: o comportamento que é punido torna-se aversivo, e por não adotá-lo ou não "vê-lo", uma pessoa evita a estimulação aversiva condicionada. Há sentimentos associados a isso, mas os fatos são responsáveis pelas contingências.
A palavra "repressão" é parte de uma metáfora elaborada que oferece um caráter dinâmico ao efeito da punição. Quando sentimentos não podem ser expressos, diz-se que surge uma pressão, até que uma explosão ocorre. Um jornal afirma que "a coisa assustadora sobre as pessoas quietas como Bremer e Sirhan e Oswald é que deve haver milhões deles nos Estados Unidos segurando a sua raiva dentro de si até que - na ausência de uma válvula de escape que muitos indivíduos possuem - eles explodem". Mas o que acontece quando uma pessoa "segura a sua raiva dentro de si", e o que é essa "válvula de escape" através da qual a maioria das pessoas deixar o vapor emocional sair? As respostas devem ser encontradas nas condições sob as quais o comportamento se torna muito forte porque ele não pode ser emitido.
Estamos frequentemente a par de uma forte tendência a fazer ou dizer algo, embora uma ocasião esteja faltando; podemos estar "repletos de boas notícias" mas não ter ninguém a quem contá-las. Mais freqüentemente, porém, não respondemos porque fomos punidos; "reprimimos nossa raiva" porque fomos punidos para "expressá-la". Se algo como uma explosão acontece subitamente, é porque a situação muda. Encontramos alguém com quem conversar e "trocar idéias longamente", ou nosso comportamento se torna mais forte do que os comportamentos incompatíveis que previamente o deslocaram. Se uma explosão tem conseqüências inesperadas por outros, medidas apropriadas podem ser tomadas para impedi-lo. A "pressão pode ser deduzida" fornecendo-se um ambiente no qual o comportamento pode ser emitido livremente ou "os impulsos podem ser dirigidos a saídas mais úteis". "Armas de brinquedo", diz um psiquiatra, "permitem às crianças trabalharem os seus conflitos e ventilar alguns impulsos agressivos". Devemos, ao invés disso, dizer que eles permitem às crianças se comportarem agressivamente sem a ameaça da punição.
Conversão: "a transformação de um conflito inconsciente em um sintoma somático simbolicamente equivalente". Uma das manifestações mais dramáticas do suposto poder da vida mental é a produção de doença física. Como uma idéia na mente é considerada como movendo os músculos que a expressam, assim também atividades não somáticas no psíquico são consideradas como afetando a SOMA. Por exemplo, úlceras são consideradas como sendo produzidas por uma "raiva dirigida a si mesmo". Devemos, ao invés disso, dizer que a condição sentida como raiva é medicamente relacionada à úlcera, e que a situação social complexa causa a ambos. Similarmente, quando se considera que o ato falho se deve possivelmente ao ódio inconsciente da criança ou do pai, podemos dizer, ao invés disso, que a condição sentida como raiva é medicamente relacionada à falha, e que deve ser atribuída, por sua vez, a uma situação social complexa. A úlcera e o ato falho são "simbolicamente equivalentes" à raiva na medida em que estão associadas a uma grande probabilidade de causar dano. A conversão não demonstra que a mente atua sobre a matéria; o psíquico não muda o físico. As condições físicas, muitas das quais relevantes ao comportamento e sentidas de vários modos, têm efeitos físicos (médicos).
Sublimação: "descarga de energia instintiva especialmente aquela associada a impulsos pré-genitais através de atividades socialmente aprovadas". Por "descarga de energia através de atividades" entenda-se "comportamento", e por "instintivo" e "associado a impulsos pré-genitais" entenda-se "devido a certos reforçadores biológicos". Se duas formas de comportamento são ambas reforçadas e se somente uma delas é punida, a outra é mais provável de ocorrer.
Os outros dinamismos freudianos ou mecanismos de defesa podem ser tratados da mesma forma. Eles não são processos psíquicos que acontecem nas profundezas da mente, consciente ou inconsciente; eles são os efeitos de contingência de reforço, quase sempre envolvendo punição. Quando muito, podemos dizer que eles são maneiras nas quais a pessoa se defende contra a punição adquirindo comportamento eficaz no mundo no qual ele vive (como ego), reforçado em parte porque as suscetibilidades do reforço que são parte de suas características genéticas (como id), e não punidos por outras pessoas ou por si mesmo (como superego).
Tem sido dito que "forças inibidoras que se opõem à descarga da tensão são o tema imediato da psicologia". Se assim é, isso se deve ao fato de que essas forças inibidoras e a descarga da tensão são figuras de linguagem que se referem à punição ou reforço, respectivamente.

Tradução de Marco Antonio Franciotti

In Skinner, B. F. (1974): About Behaviorism, New York: Vintage Books, pgs. 166-174.

A terapia comportamental

A psicologia se caracteriza por ser um campo de conhecimento sem um paradigma aceito por toda a comunidade. Neste sentido não se fala em uma psicologia, mas em várias psicologias. Entretanto, no escopo deste trabalho, o campo teórico adotado será o da análise do comportamento aplicada, adotando como instrumento básico de estudo a análise funcional. Para a terapia comportamental tanto os comportamentos considerados adequados quanto os considerados inadequados são resultados de processos complexos de aprendizagem.  

Elementos Básicos de Análise
Os elementos básicos da análise funcional são os estímulos antecedentes, as respostas (ações dos organismos) e conseqüências (mudanças que seguem a emissão da resposta e que alteram a probabilidade de ocorrência da mesma). Também é levado em conta na análise os eventos que podem abranger características genéticas, estados de privação, fatores orgânicos e fisiológicos. No trabalho clínico a análise funcional envolve pelo menos três momentos da vida do cliente, a serem analisados por todo processo terapêutico: história de vida, comportamento atual e a relação terapêutica.
A Psicoterapia
Skinner coloca a psicoterapia como mais uma agência controladora (além do governo, religião e outras) porém não organizada como as outras, mas constituindo-se uma profissão que lida com os comportamentos do campo da emoção (respondentes) e comportamentos operantes. O campo de atuação desta psicoterapia são nas situações onde existem comportamentos inconvenientes ou perigosos para o sujeito ou para o grupo.  O terapeuta comportamental utiliza em seu trabalho algumas técnicas e procedimentos mais ou menos padronizados em seu trabalho:
Audiência não punitiva: esta tem um papel importante no curso da terapia por possibilitar que os comportamentos que até então estavam reprimidos comecem a aparecer no repertório do cliente, podendo então ser trabalhados e discutidos na terapia. Posteriormente alguns efeitos relativos à punição destes comportamentos podem começar a ter extinção, sendo este um dos principais resultados da terapia. Este tipo de procedimento é colocado por Skinner como sendo comum a psicoterapia em geral;
Sugestão de manejo de contingências: O terapeuta pode sugerir ao cliente esquemas ou rotinas que afetem as contingências que podem estar controlando determinado comportamento do cliente. Posteriormente o autor detalhou mais esta questão relacionando estas sugestões com os operantes verbais onde elas podem adquirir propriedades de: Conselhos em forma de ordem (faça isto), ou de conselhos em forma de descrição (se você fizer isto, aquilo pode acontecer);
Administração de reforços: apesar de uma pequena parte da vida do clientes se passar na terapia, reforçadores podem ser usados para comportamentos sociais e principalmente verbais, através de modelagem mútua nos encontros face a face.
O Papel do Terapeuta

Nesta abordagem cabe ao terapeuta identificar as causas mantenedoras dos problemas do cliente e fornecer meios para que os objetivos dos clientes sejam alcançados. Neste sentido o papel do terapeuta é de identificar, através de inferências, as relações funcionais dos comportamentos utilizando como dado a própria sessão terapêutica e a relação terapêutica. A relação terapêutica pode ser um fator de influência positiva quando o terapeuta tem uma participação efetiva no tratamento no sentido de que tendo se desenvolvido uma relação terapêutica positiva, o cliente se sente confortável o suficiente para fornecer as informações necessárias para a terapia. Existe uma diferença entre o conhecer por compreensão (quando o organismo obteve as conseqüências reforçadoras) ou conhecer por descrição (quando as consequências foram ensinadas). Isto é chamado de comportamento modelado por contingências e comportamento governado por regras. O papel do terapeuta tendo em vista esta questão não é de simplesmente oferecer novas regras aos seus clientes, mas lançando mão de doses “homeopáticas” de algumas pequenas regras, fáceis de serem seguidas e com alta probabilidade de receberem reforços, terem um objetivo maior de que os clientes possam formular suas próprias regras, para que não mais necessitem do terapeuta no futuro, quando surgirem novos problemas. Por fim, sendo que a análise funcional se dá durante todo o processo terapêutico, não existe a necessidade da utilização de rótulos em termos de uma classificação nosológica. Esta não se mostra útil para um prognóstico do caso e serve apenas para a comunicação entre profissionais de diferentes áreas. 
Dificuldades
A Análise do Comportamento aplicada na clínica se depara com alguns problemas de controle de variáveis, o que difere do que acontece nos laboratórios experimentais. As dificuldades são de identificação das unidades de análise, de definição de eventos antecedentes e conseqüentes e de falta de informações para a definição destas classes. Nos trabalhos com grupos, onde a análise funcional também á aplicada, também são apontados problemas relativos a julgamentos influenciados por fatores culturais e pessoais.
A pesquisa em terapia comportamental
Tendo em vista as dificuldades relatadas acima, então, ressalta a importância da documentação e avaliação sistemática dos casos clínicos. Há a necessidade de se gravar e transcrever as sessões para posterior análise onde se irá descobrir as variáveis atuantes do processo terapêutico. Se tratando de uma pesquisa em clínica estes procedimentos se tornam ainda mais necessários, pois o controle total nunca é possível. Além disto, na utilização da análise funcional em uma pesquisa clinica, a investigação basicamente se apresenta como um estudo de caso, onde as formas de pesquisa ainda estão em aberto, necessitando de criatividade por parte do pesquisador e respaldo na literatura. O estudo de caso é a forma ideal para se aumentar o corpo de conhecimento em terapia comportamental podendo ser feita com delineamento experimental (tratamento testados num único sujeito, onde o comportamento do sujeito serve como seu próprio controle) ou naturalístico (utilizado quando não se tem controle das variáveis, sendo feito de modo narrativo, sistemático e temporal).
Fonte: www.redepsi.com.br

A mente e a liberdade para Skinner

Skinner, o principal psicólogo da corrente behaviorista, é um cientista pouco lido e raramente compreendido. Suas idéias são muito complexas e enfatizam a necessidade de explicar qualquer comportamento, por mais simples que pareça, como resultado da combinação de muitas causas. Os métodos da Análise do Comportamento foram propostos por Skinner para destrinçar estas múltiplas causas e mostrar como elas se combinam para determinar a conduta. Skinner escreveu um livro, "Sobre o Behaviorismo", procurando mostrar que são falsas as afirmações mais difundidas a respeito do seu pensamento, como por exemplo, as seguintes: 1)ele ignora a consciência e os estados mentais;

2)formula o comportamento simplesmente como um conjunto de respostas a estímulos, representando assim a pessoa como um autômato, robô, boneco ou máquina;

3)não dá lugar para intenção ou propósito.

O maior e mais persistente destes erros é considerar que Skinner é um dos teóricos que representam a conduta como uma sucessão de estímulos e respostas. De fato, ele foi o primeiro psicólogo experimental a demonstrar que, mesmos os animais, a maior parte dos comportamentos não são uma reação a estímulos do ambiente. Skinner deu o nome de "operantes" a estes comportamentos, chamando a atenção para o fato de que eles operam sobre o meio. Esta rejeição da teoria do estímulo e resposta está clara na frase que abre o seu livro "O Comportamento Verbal": "Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas conseqüências de sua ação". Aqui fica delineada uma relação de importância fundamental para o estudo do comportamento: a relação entre o comportamento e os efeitos que este comportamento produz sobre o ambiente. Esta relação estabelece os efeitos ou conseqüências do comportamento presente como parte das causas do comportamento futuro. Portanto, a vida do indivíduo envolve uma história de relações do seu comportamento com o ambiente; para entender o comportamento é necessário retroagir à história do indivíduo, às relações entre comportamento e conseqüências ocorridas no seu passado. O comportamento é resultado da história individual, combinada com a herança genética.

Toda a teoria de Skinner está baseada na noção de que o comportamento de um indivíduo é afetado pelas conseqüências que comportamentos similares tiveram no passado. Skinner distingue dois tipos de conseqüências do comportamento. Os reforços fazem com que comportamentos similares ocorram com mais freqüência no futuro (este processo é denominado condicionamento operante). Já as punições podem fazer com que comportamentos similares diminuam no futuro.

Porém, Skinner sempre chamou a atenção para o fato de que a redução de comportamentos através de punições é ineficaz e costuma trazer graves subprodutos psicológicos. Com base nisto, ele desaconselha enfaticamente o uso de punições na educação ou em qualquer outro campo das atividades humanas.

Skinner mostrou, por exemplo, como os efeitos do reforço são drasticamente modificados pelo contexto e pelo "tempo" de apresentação do reforço, ou, mais precisamente, pelo esquema de reforço. A análise de casos concretos, sem considerar estas e outras complexidades da história individual, pode resultar apenas em generalizações simplistas.

Vamos nos referir a um tipo concreto de comportamento, a fala, para dar uma idéia da complexidade da análise e também para introduzir um dos pontos mais controvertidos das teorias de Skinner. Aplicando as noções de reforço e punição poderíamos imaginar, por exemplo, que um indivíduo que fala muito pode ter tido o seu comportamento de falar bastante reforçado no passado; por outro lado, um indivíduo que fala pouco e mostra-se constantemente reservado, taciturno e introvertido, pode ter sido pouco reforçado e/ou frequentemente punido por seu comportamento de falar. Os métodos de análise desenvolvidos por Skinner mostram que raramente as coisas ocorrem de modo tão simples e linear. Por exemplo, reforços ou punições específicas podem fazer com que o indivíduo fale mais na presença de determinadas pessoas e menos na presença de outras; ele pode falar mais sobre certos assuntos e menos sobre outros. Além dos reforços e punições de sua história passada, a fala do indivíduo pode ser afetada pelas suas emoções, motivações, fadiga ou efeito de certas drogas, etc. Para uma análise mais acurada, referir-se simplesmente ao comportamento de falar é muito genérico: é preciso distinguir os diferentes aspectos da fala de uma pessoa, onde podem ser encontrados vários tipos de comportamentos operantes. Há os comportamentos de fazer pedidos, dar ordens, fazer perguntas, descrever diferentes tipos de coisas, ações ou situações etc. E cada um destes tipos de comportamento pode ocorrer nos mais variados contextos, sendo diferencialmente afetado por reforços e punições, além dos demais fatores já mencionados, como emoções, motivações, etc.

Utilizamos o exemplo da fala, para mencionar a grande polêmica a respeito da aplicação das idéias de Skinner à linguagem. Vários lingüistas têm argumentado que os processos de condicionamento operante não podem explicar a estrutura da linguagem humana, e nem a capacidade que um ser humano tem de falar e entender frases que nunca tenha falado ou ouvido antes. Os psicólogos influenciados por Skinner consideram, no entanto, que também na questão da linguagem, como em muitos outros domínios do comportamento humano, há evidências científicas suficientes de que o comportamento presente de um indivíduo é afetado pelas conseqüências de seu comportamento passado.

Skinner observou que a linguagem pode exercer um controle direto sobre a ação, modificando os efeitos do condicionamento operante. Ele distingue entre o comportamento moldado pelas contingências (a conduta, que é efeito direto e muitas vezes inconsciente dos reforços e punições do passado) e o comportamento governado por regras. As regras podem ser, na verdade, fórmulas, instruções, conselhos, ordens, máximas, etc. Uma pessoa pode receber instruções ou regras formuladas por outros, assim como ela pode, observando seu próprio comportamento e o mundo a seu redor, formular regras para si mesma e através delas dirigir seu comportamento. As regras podem suplantar o efeito direto do condicionamento operante, mas ainda aí cabe à Análise do Comportamento identificar o que faz com que um indivíduo esteja mais ou menos inclinado a seguir regras ou instruções.

Skinner introduziu a noção de comportamento governado por regras em seu livro "Contingências de Reforço", utilizando-a para analisar os processos de pensamento e solução de problemas. Em outra ocasião ele reafirmou que a Análise do Comportamento "... não rejeita qualquer destes processos mentais superiores; ela tomou a liderança na investigação das contingências sob as quais eles ocorrem. O que ela rejeita é a suposição de que atividades comparáveis têm lugar em um mundo misterioso da mente" ("Sobre o Behaviorismo")

Em lugar deste mundo misterioso da mente, Skinner fala, em "Sobre o Behaviorismo", do "mundo por debaixo da pele". Ele refere-se à parte do ambiente que está dentro do corpo de cada indivíduo: a pessoa fala para si mesma e executa outros movimentos de seus músculos em escala tão reduzida que não podem ser percebidos por um observador externo. Ela sente dores e as condições de tensão e relaxamento de seus músculos, etc. Só a própria pessoa pode observar ou sentir o que se passa no seu mundo privado. Skinner sustenta que a Psicologia não pode ignorar estes processos só porque eles não podem ser publicamente observados.

Como o indivíduo pode obter consciência do seu mundo privado, e também do seu comportamento e das condições que o determinam? Skinner sustenta que para isso é necessária a mediação da comunidade, que estabelece as contingências de reforço para os comportamentos de autobservação e autodescrição. Como a Análise do Comportamento possibilita um conhecimento das contingências de reforço mais eficazes, Skinner afirma que ela pode ajudar na construção de uma autoconsciência: "Uma ciência do comportamento não ignora, como se diz frequentemente, a consciência. Pelo contrário, ela vai muito além das psicologias mentalistas ao analisar o comportamento autodescritivo. Ela tem sugerido maneiras melhores para ensinar o autoconhecimento e também o autocontrole, que depende do autoconhecimento" ("Contingências do Reforço").

Subjacente à teoria behaviorista está a idéia de que todo o comportamento humano é determinado, sendo portanto controlado por causas específicas. Ao afirmar as implicações desta causalidade, Skinner é visto como um defensor do controle do comportamento e um inimigo da liberdade humana. Suas idéias podem, no entanto, ser vistas de uma maneira mais positiva: o homem não pode mudar a natureza e não pode impedir que o ambiente exerça algum tipo de controle sobre seu comportamento. Se ele recusar-se a conhecer os processos que controlam seu comportamento, será sempre uma presa inconsciente das "agências controladoras". Conhecendo os determinantes do comportamento, o homem estaria mais capacitado a assumir o controle do próprio destino.


Júlio César Coelho de Rose